Urbs Magna

Arrastões cariocas. De quem é a culpa?

Posted in BRASIL, FACEBOOK, OPINIÃO by dibarbosa on 22 de setembro de 2015

Uma opinião de um usuário do facebook sobre os arrastões nas praias do Rio de Janeiro chama atenção e viraliza.

Leia abaixo

arrastão

Não gosto de postar texto meu no perfil pessoal, mas preciso dar minha singela opinião no debate dos arrastões:

Glerickson tem 14 anos. É um menino inteligente, estudioso, respeitoso com seus pais e observador atento ao que se passa, principalmente no Rio de Janeiro, onde mora. É pobre e negro. Seus pais são dona Darcy, doméstica, e Lauro, motorista de ônibus; ambos cidadãos trabalhadores e moradores de uma comunidade distante da zona sul do Rio de Janeiro. Deram o máximo para o filho, que sempre esteve na escola e contou com o amor de seus pais dentro de casa.

Nestes últimos tempos, Glerickson tem estado em dúvida sobre si mesmo e sobre nossa cidade. Ao ler as notícias na internet, começou a perceber como funciona o Brasil, e em específico o Rio. No caso dos arrastões na Zona Sul, ele reconheceu um dos menores por uma foto, pois tinha estudado com ele. O menor em questão tem o apelido de Lulinha. Ele também é pobre, negro e filho de dois trabalhadores corretos. Lulinha, ao contrário de Glerickson, nunca gostou de estudar, nunca respeitou o próximo, sempre foi um adepto assumido da malandragem carioca, e, com seus 15 anos, já passou em todas delegacias possíveis, acusado e condenado por toda sorte de crimes.

Glerickson entrou no Facebook de Lulinha e viu que o mesmo ‘ostentava’, em fotos, os produtos que acabara de roubar na zona sul. Cordão, celular, pulseira e relógios. Embaixo das fotos, comentários de apoio dos amigos e risadas cúmplices de outros parceiros do crime. Glerickson sentia um pouco de inveja daquela fama passageira do amigo. Resolveu ir mais fundo e ver outras redes sociais.

No Facebook do maior jornal carioca, ele descobriu que o amigo era tratado como vítima. Vítima da polícia militar e vítima da sociedade como um todo. Chegou, inclusive, a descobrir que ele, por ser negro e pobre, tinha uma espécie de salvo conduto para o que quisesse diante da imprensa. Era negro e pobre? Ok. Tal qual um 007, você tem licença para matar. A culpa sempre será da sociedade. E Glerickson achou tal pensamento, além de totalmente errado, muito racista. Por que a mídia tinha o direito de generalizar o comportamento de seres humanos baseado unicamente na cor de suas peles? Glerickson, com uma reflexão básica, pensou no branquelo Hitler e se revoltou mais ainda com o vitimismo com que Lulinha e seus parceiros eram mencionados nas matérias.

Glerickson sabia, pois era observador, que o pobre é quem mais sofre com a violência desenfreada nas grandes cidades. Os intelectuais de plantão, os chamados ‘especialistas’, falam demais e vivem de menos o problema. Glerickson lembrou de quantas vezes seus pais, honestos, pobres e trabalhadores, não saíram de casa depois de tal hora da noite, quantas vezes eles não foram assaltados, quantas vezes eles perderam o salário do mês inteiro para um cara que não tinha coragem de tirar uma carteira de trabalho. Aonde estavam os direitos dos cidadãos, independentemente de cor e classe social, da cidade onde morava? Será que não valia a pena ser honesto, perguntava-se.
E a investigação particular de Glerickson acabou na rede social de um famoso deputado carioca, Marcelo Freixo, para ler qual era a opinião do parlamentar sobre o assunto. Achou uma postagem recente, do dia 26 de agosto de 2015, onde lia-se ‘Apartheid carioca’, em referência ao acontecido na África do Sul, onde uma minoria branca decidia o destino da maioria negra daquele país. Mais uma vez, o menino percebeu que era, como negro e pobre, vitimizado por mais uma pessoa, desta vez um político. Político branco. Rico. Morador da Zona Sul. E sentiu raiva. Raiva do parlamentar, por desacreditar todos os negros como se bandido fossem, raiva por achar que pobreza financeira é sinônimo de vontade de assaltar. Raiva por ver um sujeito informado como Freixo fingir que não entendia que 99% da população pobre do Rio de Janeiro é quem sofria nas mãos de ‘meninos’ como Lulinha e cia. Os ricos ainda podiam blindar seus carros, podiam ficar, como seus próprios pais, reféns dentro de um condomínio com grades, podiam viajar pro exterior para espairecer, podiam desabafar nas redes sociais e, inclusive, podiam virar políticos para se eleger como paladinos da ‘justiça social’. Quem defendia os verdadeiros interesses das pessoas que mais sofrem? Ele não conseguia encontrar. E percebeu que havia uma verdadeira indústria da miséria, de políticos a especialistas que, como urubus, sobrevivem do caos. Precisam de carniça diariamente.

Por fim, Glerickson ainda tentou recorrer à autoridade máxima do poder Executivo, e visitou o perfil de Dilma Rousseff, presidente de seu país. Dilma era uma defensora incansável da manutenção da maioridade penal aos 18 anos. Dilma era companheira de muitos companheiros de partido presos nos últimos anos, por roubos muito piores que os praticados por Lulinha nas praias do Rio de Janeiro. E Glerickson novamente percebeu que a situação era complicada, porque se a presidente da República tinha amigos mais ‘barra pesada’ que ele próprio, como poderia, então, ter alguma medida que fosse contra toda a violência que prejudicava seus pais, sua vida e seu país?

E de clique em clique, de página em página, Glerickson descobriu que estivera no caminho errado. Estudar, trabalhar e perseverar no difícil caminho da honestidade era para os trouxas. ‘Malandro é malandro e mané, pode crer que é’, como dizia a letra de uma novela. Glerickson tinha, agora, raiva de si e dos pais. Por que não o educaram para ser esperto, com sotaque bem carioca? Por que não o ensinaram que eles, por serem negros e pobres, estavam condenados por uma sociedade doente e por uma mídia esquizofrênica ao mundo do crime? Glerickson tinha entendido que Lulinha era o verdadeiro gênio: roubava, postava no ‘Face’ e ria. E no entanto o marginal era o policial militar, também negro, que tentara prender os menores. Assim disse a defensora pública Eufrasia das Virgens, e foi além: os detidos numa operação recente pela PM poderiam buscar indenizações do Estado. É ou não é genial? Glerickson tinha a certeza em cada célula de seu corpo que hoje, 2ª feira, sua vida teria novos rumos: seu sonho era se tornar uma vítima da sociedade opressora capitalista. E estava ansioso pelo próximo fim de semana ensolarado no Rio de Janeiro.

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