Urbs Magna

A VIVÊNCIA DO DESAPEGO…

Posted in CARLOS AMARAL, ESOTERISMO, RELIGIÃO by dibarbosa on 13 de agosto de 2013

DesapegoPublicado Via: Carlos Amaral

Para quem ainda não reflectiu sobre o assunto, afirmo que o desapego é a prática do discernimento puro. Através dessa prática, e pouco a pouco, vamos auferindo de um maior controlo sobre as ondas do pensamento “dolorosas” ou “impuras”, que faz-nos indagar: “Por que é que eu desejo este objecto? Que benefício obterei em possuí-lo? De que maneira a sua retenção ajudar-me-á a conquistar maior conhecimento e liberdade?” Perante as interrogações atrás mencionadas, teremos sempre respostas embaraçosas. Em primeiro lugar, verificaremos que o objeto apetecido não só é inútil como instrumento de libertação, mas, também, é potencialmente pernicioso enquanto instrumento propício à ignorância e à sujeição; e mais, que o nosso desejo não é na verdade anseio pelo objecto em si categoricamente, mas apenas uma aspiração de almejar alguma coisa, uma mera agitação da mente.

Perante a eventual dificuldade de percepção exacta sobre o assunto, é muito fácil ponderar acerca de tudo isso num momento de tranquilidade. Mas, na realidade, o nosso desapego é avaliado quando a mente de súbito é varrida por uma enorme onda de raiva, de cobiça ou de avareza. Então, somente através de um esforço decidido da vontade, lembrar-nos-emos daquilo que a nossa razão já sabe — que essa onda, o objecto sensorial que a suscitou, o senso de individualidade que identifica a experiência em si mesma – são todos igualmente efémeros e superficiais, não são a Realidade subjacente.

É importante saber também, que o desapego pode brotar muito lentamente. Mas, mesmo no seu estágio mais inicial, é recompensado por uma sensação nova de liberdade e de quietude. Nunca dever-se-á concebê-lo como austeridade, como uma espécie de autotortura, portanto algo discricionário e penoso. A prática do desapego confere sabor e significado até no incidente mais banal e mais enfadonho dos nossos dias. O desapego elimina o mau humor das nossas vidas. E, à medida que progredimos, e conquistamos um crescente autodomínio, notamos que não estamos renunciando a nada do que realmente necessitamos ou queremos — mas sim, estamos apenas libertando-nos dos desejos e das necessidades imaginárias que a mente apegada tanto sustenta. E com esse espírito, a nossa alma cresce até conseguir aceitar, serena e imperturbável, os piores reveses da vida. Lembrando o que o Mestre Jesus, o Cristo, disse: “Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” — podemos entender que, a existência corriqueira e sem discernimento, do apego aos sentidos, é, de facto, muito mais penosa, muito mais difícil de suportar do que as disciplinas que torna-nos livres. Parecerá difícil compreender essa passagem bíblica, porque o amor parte das pessoas que têm sido habituadas a imaginar a existência terrena de Cristo como trágica, isto é, como uma gloriosa e inspiradora tragédia, por certo, mas que não obstante terminou numa cruz. Deveríamos antes indagar: “O que seria mais fácil: pender naquela cruz com a iluminação e o desapego de um Cristo, ou nela padecer na ignorância, na agonia e na sujeição de um pobre ladrão?” Mas, seja como for, a cruz pode alcançar-nos, estejamos preparados e aptos para aceitá-la ou não.

O desapego não é indiferença — nunca é demais repeti-lo. Muitas pessoas rejeitam as metas da filosofia iogui como “inumanas” e “egoístas”, pois imaginam a ioga como um distanciamento frio e deliberado de tudo e de todos em prol da busca da salvação pessoal. Genuinamente, a verdade, é exactamente o oposto. O amor humano é a emoção mais elevada que a maioria de nós conhece. O amor liberta-nos, numa certa medida, do egoísmo que mantemos em relação a um ou mais indivíduos. Mas, como é sabido, o amor humano ainda é possessivo e exclusivista. O amor pelo EU MAIOR não é uma coisa nem outra. Admitimos, prontamente, que é melhor amar as pessoas “pelo que elas realmente são” do que apenas pela sua beleza, inteligência, força, senso de humor ou alguma outra qualidade – mas isso não passa de uma afirmação vaga e relativa. O que as pessoas “realmente são” é o EU Superior, nada mais nada menos. E amar o EU Maior em nós mesmos é amá-lo em toda a parte. E amar o EU Superior em toda parte é ir além de qualquer manifestação da Natureza, ou seja, é ir até à Realidade interior da Natureza. Mas esse amor é demais vasto para ser compreendido por espíritos vulgares. No entanto, ele é simplesmente um aprofundamento e uma expansão infinita do pequeno e limitado amor que todos sentimos. Portanto, amar alguém, mesmo na habilidade habitual dos homens, é captar o aparecimento instantâneo e vago, dentro dessa pessoa que amamos, de algo formidável, que infunde respeito, e eterna memória. Na nossa ignorância, achamos que esse “algo” é único. Dizemos, peremptoriamente, Ele ou ela, é diferente de todos. E isso, porque a nossa percepção da realidade é turvada e obscurecida pelas manifestações exteriores — o carácter e as qualidades individuais da pessoa que amamos – e pelo modo como a elas reage o nosso próprio senso de individualidade. Entretanto, esse lampejo pálido da percepção é uma experiência espiritual válida e deve encorajar-nos a purificar a nossa mente, preparando-a para aquela espécie infinitamente mais elevada de amor que está sempre a aguardar-nos. Esse amor não é inquieto e efémero, como o amor humano. É firme, eterno e sereno. É absolutamente livre da cobiça, pois, o amante e o amado, ter-se-ão tornado um só.

Para concluir, observemos, pois, esta passagem do Bhagavad-Gita que muito gosto:

As águas fluem continuamente para o oceano,
Mas o oceano nunca perturba-se;
O desejo flui para a mente do vidente,
Mas ele nunca perturba-se.
O vidente conhece a paz…
Conhece a paz aquele que esqueceu o desejo.
Ele vive sem ansiedade:
Livre do ego, livre do orgulho.

 

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