Urbs Magna

LULA e BOLSA FAMÍLIA x CORONELISMO

Posted in ALIMENTAÇÃO, BRASIL, ECONOMIA, GEOGRAFIA, Livros, OPINIÃO, POLÍTICA by dibarbosa on 18 de julho de 2013

atualização 03/novembro/2016

O Bolsa Família mudou a vida nos rincões mais pobres do país: o tradicional coronelismo perdeu força e a arraigada cultura da resignação foi abalada.

coronelismoA socióloga Walquiria Leão Rego e o filósofo italiano Alessandro Pinzani escreveram “Vozes do Bolsa Família” – resultado de cinco anos de entrevistas com os beneficiários em lugares como o Vale do Jequitinhonha (MG), o sertão alagoano, o interior do Maranhão, Piauí e Recife. Investigaram o “poder liberatório do dinheiro” provocado pelo programa. Sem se preocupar com estatística, a pesquisa foi qualitativa e baseada em entrevistas abertas. 
A socióloga defendeu que o Bolsa Família “foi o início de uma democratização real” do país. Ela afirmou também que “nossa elite é muito cruel” devido aos preconceitos que cercaram a iniciativa.
Rego afirmou que existe “
uma crueldade no modo como as pessoas falam dos pobres” e que há uma crueldade social presente que se fizeram registrar em casos que chocaram o Brasil como o caso dos adolescentes que esfaquearam mendigos e queimaram índios. “A sociedade tem desigualdades tão profundas e muito antigas. Não se olha o outro como um concidadão, mas como se fosse uma espécie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravidão. Nenhum país tem mais de três séculos de escravidão impunemente.”
Ocorreram transformações sociais para os beneficiários do programa. De repente se ganhou uma certa dignidade na vida, algo que nunca se teve, que é a regularidade de uma renda. Se ganhou uma segurança maior e respeitabilidade. Houve também um impacto econômico e comercial muito grande. Bons pagadores, este povo aprendeu a gerir o dinheiro após mais de uma década de experiência. Não resolveu o problema, mas foi o início de uma democratização real, da democratização da democracia brasileira. É inaceitável uma pessoa se considerar um democrata e achar que não tenha nada a ver com um concidadão que esteja ali caído na rua. Essa é uma questão pública da maior importância.
A constitucionalização do Bolsa Família precisava ser feita urgentemente e a renda teria que ser maior porque é um programa barato com apenas 0,5% do PIB e as pessoas têm direito à renda básica. Teria que ser uma política de Estado com governos impossibilitados de dizer que não tem mais recurso. Infelizmente, qualquer política distributiva mexe com interesses poderosos – isso é histórico. A elite brasileira acha que o Estado é para ela, que não pode ter esse negócio de dar dinheiro para pobre. Além de o Bolsa Família entrar na Constituição, é preciso ter outras políticas complementares, políticas culturais específicas. É preciso ter uma escola pensada para aquela população. É preciso ter outra televisão, pois essa é a pior possível, não ajuda a desfazer preconceitos. É preciso organizar um conjunto de políticas articuladas para formar cidadãos.
As pessoas quando saem desse nível de pobreza não se transformam só em consumidores. A gente se engana. Uma pesquisadora sobre o programa Luz para Todos, no Vale do Jequitinhonha, perguntou para um senhor o que mais o tinha impactado com a chegada da luz. A pesquisadora, com seu preconceito de classe média, já estava pronta para escrever: fui comprar uma televisão. Mas o senhor disse: ‘A coisa que mais me impactou foi ver pela primeira vez o rosto dos meus filhos dormindo; eu nunca tinha visto’. Essa delicadeza… a gente se surpreende muito.
Durante as entrevistas que fez nos lugares citados acima, a socióloga presenciou uma alegria que sentiram de poder partilhar uma comida que era deles, que não tinha sido pedida. Não tinham passado pela humilhação de pedi-la; foram lá e compraram. Crianças que comeram macarrão com salsicha pela primeira vez. É muito preconceituoso dizer que só querem consumir. A distância entre a elite brasileira e os pobres é tão grande que a gente não pode imaginar. A carência lá é tão absurda a ponto de poder ser uma grande experiência tomar água gelada.
As mulheres se tornaram mais independentes com o auxílio do governo. 
Elas nunca tiveram dinheiro e passaram a ter, são titulares do cartão, têm a senha. Elas têm uma moralidade muito forte: compram primeiro a comida para as crianças. Depois, se sobrar, compram colchão, televisão. E quando uma beneficiária foi questionada ela disse: ‘Pensando bem, acho que a bolsa nos dá mais coragem para resolver questões complicadas no casamento’. Certamente essas mulheres são mais independentes, como qualquer pessoa que não tinha nada e passa a ter uma renda. Um homem também. Mas há censuras internas, tem a religião. As coisas são muito mais espessas do que a gente imagina.
Outra questão é a do machismo. 
Se o machismo é muito percebido em São Paulo, imagina quando no chamado Brasil profundo. Lá, os padrões familiares são muito rígidos. É comum se ouvir que a mulher saiu da escola porque o pai disse que ela não precisava aprender. Elas se casam muito cedo. Agora, como prevê a sociologia do dinheiro, elas estão muito contentes pela regularidade, pela estabilidade, pelo fato de poderem planejar minimamente a vida.
E atingindo em cheio o fim a que se destina esta matéria, o Bolsa Família enfraqueceu o coronelismo. O dinheiro vem no nome da mulher, com uma senha dela e é ela que vai ao banco; não tem que pedir para ninguém. É muito diferente se o governo entregasse o dinheiro ao prefeito. Num programa que envolve 54 milhões de pessoas, alguma coisa de vez em quando [acontece]. Mas a fraude é quase zero. O cadastro único é muito bem feito. Foi uma ação de Estado que enfraqueceu o coronelismo. Elas aprenderam a usar o 0800 e vão para o telefone público ligar para reclamar. Essa ideia de que é uma massa passiva de imbecis que não reagem é preconceito puro. O coronel perdeu peso porque ela adquiriu uma liberdade que não tinha. Não precisa ir ao prefeito. Pode pedir uma rua melhor, mas não comida, que era por ai que o coronelismo funcionava. Há resíduos culturais. Ela pode votar no prefeito da família tal, mas para presidente da República, não. E até 2011, quando Walquiria Leão Rego terminou a pesquisa, os votos eram de Lula. E por que ele tem essa força? A resposta é que nunca paramos para estudar o peso da fala testemunhal. Todos sabem que ele passou fome, que é um homem do povo e que sabe o que é pobreza. A figura dele é muito forte. O lado ruim é que seja muito personalizado. Mas, também, existe uma identidade partidária, uma capilaridade do PT.
Mas o Bolsa Família não é uma droga que torna o lulismo imbatível nas urnas. 
A elite brasileira ignora o seu país e vai ficando dura, insensível. Sente aquele povo como sendo uma sub-humanidade. Imaginam que essas pessoas são idiotas. Por R$ 5 por mês eles compram uma parabólica usada. Certa vez numa casa eles estavam vendo TV Senadojustificando que que gostam de aprender.
O SUS (Sistema Único de Saúde) realizou várias laqueaduras a pedido das beneficiárias. É o sonho maior. Aliás, outro preconceito é dizer que elas vão se encher de filhos para aumentar o Bolsa Família. É supor que sejam imbecis. O grande sonho é tomar a pílula ou fazer laqueadura.
Nas r
egiões visitadas pela socióloga não há emprego. Eles são chamados ocasionalmente para, por exemplo, colher feijão. É um trabalho sem nenhum direito e ganham menos que no Bolsa Família. Não há fábricas; só se vê terra cercada, com muitos eucaliptos. Os homens do Vale do Jequitinhonha vão trabalhar por salários aviltantes. Diversos fazendeiros relataram que não conseguiam mais homens para trabalhar por causa do Bolsa Família. Muitos pagam R$ 20 por semana, quase escravidão. Pagam uma miséria por um trabalho duro de 12, 16 horas, não assinam carteira, são autoritários e acham que as pessoas têm que se submeter a isso. E dizem que receber dinheiro do Estado é uma vergonha.
Mas as mulheres gostar
iam de ter emprego, salário, carteira assinada, férias, direitos. Há também uma pressão social. Uma pesquisa feita em Itaboraí, no Rio de Janeiro, diz que lá elas têm vergonha de ter o cartão. São vistas como pobres coitadas que dependem do governo para viver, que são incapazes, vagabundas. Como em “Ralé”, de Máximo Gorki, os pobres repetem a ideologia da elite. A miséria é muito dura.
A cultura da resignação foi muito estudada e é tema da literatura: Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego. Ela tem componente religioso: ‘Deus quis assim’. E mescla elementos culturais: a espera da chuva, as promessas. Essa cultura da resignação foi rompida pelo Bolsa Família: a vida pode ser diferente, não é uma repetição. É a hipótese levantada. Aparece uma coisa nova: é possível e é bom ter uma renda regular. É possível ter outra vida, não precisar ver os filhos morrerem de fome, como muitas mães e avós viam ntes. Com o Bolsa Família iniciou-se o sentimento de que o Brasil inovou de verdade com negras médicas, dentistas, por causa do ProUni (Universidade para Todos). Depois de todos estes anos, o Bolsa Família mostrou que é possível melhorar de vida, aprender coisas novas. Não tem mais o ‘Fabiano’ [personagem de “Vidas Secas”], a vida não é tão seca mais.

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