Urbs Magna

Um dia em Guarituba, Município de Piraquara – PR

Posted in Sem categoria by dibarbosa on 25 de abril de 2013

PIRAQUARA 25/04/2013

Onde fica a Planta Bairro Guarituba?

Com investimento de R$ 93.815.368,36 proveniente do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento para Urbanização de Favelas e Habitação nas micro bacias dos Rios Itaqui, Irai e Piraquara, o Município de Piraquara no Paraná acelera rumo às muitas melhorias possíveis, especialmente no setor de saneamento.

Piraquara/Bairro Guarituba conhecido como Betonex

A Intervenção consiste nas seguintes ações:

1. Regularização Fundiária de 8.087 famílias, no bairro Guarituba, garantindo o direito à propriedade de cada família.
2. Recuperação Ambiental das áreas ocupadas irregularmente, com a retirada das famílias das áreas de risco e criação de quatro parques, o Parque do Acará com 68.329,00 , Parque Mandi com 225.435,34 m², Lambari 53.289,44 m² e Parque Linear com82.000,00 m² totalizando uma área de 429.053,78 m² com infra-estrutura de lazer e preservação ambiental evitando a reocupação das mesmas. Demolição das construções que estão nas áreas de preservação permanente com área aproximada de 35.506,96 m².

Parque Lambari – Projeto de Fábio Faria

Planta Parque Mandi Fabiio Faria

3. Novas Unidades Habitacionais, totalizando 803 unidades com padrão arquitetônico diferenciado.
4. Infraestrutura Urbana, como Rede de Abastecimento de Água e Esgoto, Energia Elétrica, Galerias de Drenagem, Pavimentação, Sinalização e Paisagismo, Transporte Coletivo e Equipamentos Urbanos.
5. Trabalho Social: Levantamento, Cadastro e Orientação para 8.890 famílias que estão envolvidas diretamente na transformação Urbana nas áreas de intervenção do PAC.

2013/April Esgoto/Guarituba/Piraquara

O Bairro Guarituba é o principal movimentador de recursos do PAC no Paraná.

A 18 quilômetros de Curitiba, existe um lugar cujo nome é no mínimo inspirador – Guarituba, ou “região de muitas aves d’água”, no mais castiço guarani. É provável que assim o fosse. Pelo menos até que o destino dessa área monstruosamente grande – 15 quilômetros quadrados, três vezes o bairro da Água Verde – começasse a mudar. Foi em 1951, ano em que o milionário Humberto Scarpa decidiu lotear a então Fazenda Guarituba em 243 chácaras – ou “lotes coloniais”, como se dizia. Parecia uma saída de mestre para se livrar de tanto banhado às beiras do Rio Iraí, no município de Piraquara. Mas até agora, cinco décadas passadas, o investimento não foi um bom negócio para ninguém.

Scarpa teria dividido o pântano do Iraí em propriedades de 75 mil metros quadrados cada. Em repartições posteriores, para outras vendas, os novos proprietários ratearam as terras em até 150 terrenos. A conta parece ir ao infinito. De cerquinha em cerquinha, a velha fazenda se transformou na maior ocupação irregular do Paraná, abrigando cerca de 12 mil famílias, 48 mil pessoas abaixo da linha da pobreza, o equivalente a 10% dos sem-teto de Curitiba e região metropolitana.

Hoje, o Guarituba é sinônimo das péssimas relações urbanas nas grandes conurbações. Transformou-se numa zona favelizada e violenta, que em nada lembra as “aves d’água” do passado. No seu lugar há gansos que dão medo, criados à solta nos banhados. Também não restou muito dos tempos em que os colonos de origem alemã fizeram da região uma bacia leiteira, visitada por curitibanos em busca de bons queijos. Há, sim, vacas e mais vacas andando pelo bairro piraquarense, mas costumam ir para o brejo, para alguma das muitas valetas ainda abertas, ou afundam na turfa – terra mole do banhado que reserva uma surpresa a cada esquina.

Com tantos problemas, a região virou uma espécie de enciclopédia concentrada dos males que atormentam as periferias das grandes cidades. A situação se agravou em meados da década de 80, quando caiu de vez nas garras da informalidade. Além das ocupações irregulares e de favelas dignas de Lagos, na Nigéria, não lhe faltam loteamentos clandestinos e problemas fundiários a dar com o pé. São tantos e tão complexos que podem desafiar a ciência de analistas do setor, como Thanyelle Galmacci, da Cohapar, e Raquel Sizanoski, da prefeitura de Piraquara, duas dos muitos profissionais envolvidos na operação que há alguns meses se ocupa de transformar o Guarituba num bom lugar para se viver.

Homens trabalhando

A operação batizada de Novo Guarituba começou no final do ano passado, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O próprio Lula pisou na turfa do bairro para lançar o projeto. Pela primeira vez, a região deixou de ser objeto do protesto solitário dos moradores e gestores de Piraquara, ganhando notoriedade nacional. Mas pode-se afirmar com certa folga que para a maioria dos vizinhos curitibanos o Guarituba ainda é uma abstração.

Vê-se pouco dele quando se passa pela PR-415, rumo a algum dos recantos paradisíacos de Piraquara. Dá para imaginar que se trata de um bairro pobre, mas não de praticamente uma cidade, maior do que 60% dos municípios do Paraná. Para os mais informados, fazer uma parada para visita pode parecer imprudente, tamanha a freqüência de algumas das 15 vilas da região no noticiário policial, a exemplo do Jardim Holandês. Mas há um dado ligado ao Guarituba que bem podia transformá-lo numa bandeira política e social – 70% da água que abastece Curitiba e região passa por ali. E “ali” é uma área em que 48% da população não tem esgoto e 30% não dispõe de água encanada, de acordo com estudo da prefeitura local junto ao IBGE. O resto dá para imaginar.

Os estragos causados no Guarituba desde o infeliz loteamento de Scarpa são tantos que os investimentos do PAC, embora bem-vindos, são notadamente insuficientes para dar conta da situação. Seria preciso três-quatro vezes mais. A receita total é na casa dos R$ 91,7 milhões e será destinada a dar posse de terra aos moradores, a reassentar 803 famílias que moram em área de risco e a reurbanizar o território. “A verba do PAC é pequena. Vamos atender um terço da demanda”, calcula o ex-prefeito de Curitiba,o engenheiro Rafael Greca de Macedo, atual presidente da Cohapar.

Greca – conhecido por seu talento retórico – não está exagerando. O projeto Novo Guarituba é um feito dos mais complexos. Se realizá-lo como planeja, entrará para a História da Habitação no Brasil. De qualquer ponto que se olhe o bairro desafia a lógica. A começar pela turfa – terra escura que afunda tanto quanto as areias da praia. Pisar nesse tipo de solo impressiona mais do que o poeirão e mais do que a extensão territorial do Guarituba – um lugar absolutamente diverso das 258 favelas da vizinha Curitiba.

Operários que trabalham na Avenida Betonex – uma das principais do bairro –, colocam manilhas à tarde. No dia seguinte, pela manhã, elas já se “mexeram”, mandando o trabalho literalmente pelos canos. A situação dos moradores é mais ou menos parecida. O Guarituba se move sob seus pés. Apenas 20% têm escrituras e moram mais ou menos. Entre os 80% restantes, o que se encontra é um mar de gente às voltas com carros que atolam e com banhados na porta das casas. Poucas zonas favelizadas são tão insalubres, a ponto de os gastos com saúde, de acordo com a prefeitura, serem ali pelo menos 5% mais altos do que a média do município.

É o caso da zeladora de escola Silvalina de Lima Alves, 58 anos, e de seu marido, o aposentado José Antônio da Silva, 73. O casal se fixou no Guarituba há 15 anos. Junto, veio Bernardina de Lima, mãe de Silvalina, 88 anos e problemas cardíacos crônicos. “Ela está desenganada”, diz a filha, diante de um cenário insólito. A frente da moradia é um minipântano. “Não seca nunca”, diz a proprietária. Para entrar é preciso se equilibrar numa pinguela. A família clama aos céus por uma solução, já que os poucos planos que fazem sempre afundam no lamaçal. Tempos atrás, José comprou uma mesa de bilhar. Mas o local, situado numa rua que não consta nos projetos de reurbanização, espanta a freguesia. A família vive com R$ 415 mensais, ajuda a criar quatro netos e vive às voltas com problemas de saúde. “Mas o que mais me incomoda, no fundo, é a violência”, resume Silvalina.

De fato. As águas que podem ser encontradas ao cavar míseros 30 centímetros no quintal não são a única tragédia anunciada. Seus índices de criminalidade colocam a pacata Piraquara numa posição desconfortável. Ao mesmo tempo em que é paraíso ecológico, aparece no Mapa da Violência da Rede Latino-Americana de Informação, a Ritla, como o segundo município mais violento do Paraná e o 26º do Brasil.

São quase 60 assassinatos por 100 mil habitantes. As principais vítimas são jovens entre 15 e 24 anos, pelo que tudo indica moradores do Guarituba. Apenas nos primeiros seis meses de 2006 foram 50 jovens mortos no bairro, um número escandaloso. O caos levou a secretária de Ação Social, Cristina Rizzi Galerani, a bolar um plano de emergência, voltado principalmente para as sete escolas municipais e duas estaduais da região. “A gente enfrenta muita resistência, inclusive dos professores. Esses meninos são discriminados”, comenta Rizzi sobre a operação que corre em paralelo aos tratores que abrem as ruas do PAC. O Guarituba quer sair do pântano. Mas precisa entrar no rol dos grandes debates metropolitanos. E rápido, como se espera de um plano de aceleração digno desse nome.

Albari Rosa/Gazeta do Povo

Habitação

Ânimos quentes no Guarituba

Implantação do PAC é difícil. Há muitas obras de infra-estrutura a fazer, incompreensão da sociedade e população à beira de um ataque de nervos

Publicado em 22/06/2008 | José Carlos Fernandes

A dona de casa Joceli Teresinha Siqueira, de 31 anos, sabe pouco sobre o Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, no Guarituba. Mas já entendeu que seus dias estão contados no casebre em que cria cinco filhos – com o sexto a caminho. Às voltas com a Cohapar, espera informações sobre o que a aguarda no conjunto habitacional que vai abrigar as 803 famílias do bairro que moram em zona de risco. As demais serão regularizadas. “Não posso mais viver aqui. Tem cada rato, ó, desse tamanho”, comenta, tendo como fundo uma paisagem que, contando, ninguém acredita.

Além do chão que afunda, a casa de tábuas de Teresinha e do marido, o pedreiro Jair, de 39 anos, há pouco recebeu água encanada. Mas o banheiro é uma cabana num canto do quintal. As crianças de 13, 11, 7, 5 e 2 anos brincam descalças no pântano e há lixo espalhado por todos os lados. Para chegar até ali, via de regra no Guarituba, tem de se atravessar uma ponte que balança. Às vezes, cai.

Mas é na frente da casa de Joceli Teresinha que está um dos sinais de que a zona mais problemática da região metropolitana pode reescrever sua história. Ali, passa o Canal de Água Limpa, obra do governo do estado iniciada antes do PAC, em 2006. Trata-se de uma estratégia para melhorar a captação da Sanepar na região. No ponto menos poluído do Rio Iraí, um desvio formou o novo canal, que tem cerca de cinco quilômetros e segue, em linha reta, entre a PR-415 e a BR-277. Em sua margem haverá um parque linear e 50 metros de recuo, obrigando a retirada de famílias como a dos Siqueira. Quando concluído, as aves que deram origem ao nome Guarituba poderão voltar para casa.

Pena que esse braço de rio ainda não chegue ao mar, cumprindo seu destino. Em abril deste ano, um morador das antigas conseguiu na Justiça a paralisação das obras, já que não admite a passagem do canal por suas terras. A morosidade da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça em resolver a pendenga mexe com os humores da turma da Cohapar. Não para menos. Esse e outros obstáculos tendem a atrasar a chegada das verbas do governo federal – disponíveis apenas quando a regularização fundiária estiver resolvida. Eis a questão: nem um mestre do xadrez consegue mover as peças com facilidade nesse tabuleiro.

O projeto Novo Guarituba tem problemas demais para pouco tempo disponível, embora nem na prefeitura de Piraquara nem na Cohapar alguém admita que pode não dar tempo. O prazo de realização dado pelo PAC é de dois anos. Ou seja, até 2010, no máximo 2011. Para não ficar à beira do caminho, é preciso aviar o Canal de Água Limpa e mais duas obras de vulto, a micro e a macrodrenagem – sistemas hidráulicos que garantem a secagem dos 15 quilômetros quadrados do bairro. Sem cumprir essas etapas, nada feito.

“A região não é recomendável para moradia. Mas a mentalidade no campo da habitação, hoje, quando há regularização e relocação, é manter a comunidade no local com o qual tem vínculos”, explica a engenheira da Cohapar Suzana Dieckman, diante do desafio que é transformar o Guarituba numa cidade – melhor nome para um logradouro de 48 mil habitantes.

Para chegar lá, os técnicos têm de refazer ruas que começam com oito metros de largura e terminam com três metros. Acompanhar três-quatro famílias que dividem terrenos de 200 metros quadrados. Lidar com uma população cuja renda raramente ultrapassa a média de 2,5 salários mínimos e cujo grau de instrução é baixíssimo. Cerca de 40% dos moradores têm entre cinco e oito anos de estudo. E investiu anos de trabalho suado nessa terra de ninguém, erguendo casas que se desmancham, mas suas casas.

É o bastante para mais problemas. A “temperatura” anda elevada na região. O Guarituba tem tantas necessidades estruturais – como acabar com os rabichos de luz – que ainda não sobrou muito tempo para discutir as novas condições de moradia. O resultado é um disse-me-disse. Assim como nas zonas do PAC em Curitiba, tem quem bata o pé dizendo que não vai sair de onde mora. “Vamos fechar a Avenida Betonex. Semana que vem. Isso aqui é tudo mentira”, esbraveja um morador ao ver o carro da Gazeta do Povo.

As reclamações vão do tamanho das novas casas – 40 metros quadrados, em quatro modelos diferentes – à perda dos investimentos na moradia para quem vai ter de mudar ou ter o terreno reduzido. É um salve-se quem puder. “Amontoado, só no cemitério. Pobre não é obrigado a viver em casa popular. Pobre só sofre mesmo”, protesta a dona de casa Zoraide dos Santos, 50 anos, de bicicleta, quixotescamente, contra tudo e contra todos, diante de um trator imenso. São cenas do PAC.

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3 Respostas

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  1. Anônimo said, on 12 de outubro de 2015 at 4:04 PM

    Olá, Sr. Dibarbosa, você poderia me relatar onde encontrou o significado de Guarituba “no mais castiço guarani”, para que eu possa utilizar a fonte em minha dissertação?

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  2. Cape Note Vigorez said, on 14 de setembro de 2013 at 12:33 PM

    VAI NADA, INVEFELIZMENTE, PORQUE O GABÃO AQUELE LADRÃO METEU A MÃO NO DINHEIRO DO PAC…. O FAMIGERADO “NOVO GUARITUBA” FOI UM FACTOIDE PRA ENCHER O BOLSO DOS POLITICOS NA REGIÃO.

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  3. dibarbosa said, on 4 de maio de 2013 at 3:06 PM

    Este lugar vai ficar muito bom, finalmente.

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